Desconectar para conectar: uma reflexão.

Terça, 18 de Outubro de 2011, 16:50 h por Vanessa Fernandes
A tecnologia nos trouxe a real possibilidade de experimentar situações que eram consideradas impossíveis ou vistas como meros produtos dos filmes e livros de ficção científica. Quem imaginaria há trinta anos que seria possível conversar com uma pessoa que mora em outro continente por vídeochamada? Ou que poderíamos encontrar qualquer informação rapidamente à distância de um clique? Celulares e tablets com toda a funcionalidade e potência que conhecemos, e que estão se tornando ferramentas básicas e banais, não eram cogitados pela grande parte das pessoas do planeta.

Olhando bem, toda essa (r)evolução tecnológica que testemunhamos aconteceu em menos de um século! Dispositivos cada vez menores e com mais potência são criados, ao passo que um novo mundo, o virtual, começa a tomar conta do  nosso cotidiano.
A ironia disso tudo é que é exatamente esse mundo virtual, “irreal”, resultado da soma tecnologia e internet, que consome uma grande fatia das nossas vidas “reais”.

A verdade é que as realidades estão se mesclando e o que antes era ( aparentemente) simples e unilateral, ou seja, ter uma vida baseada na presença física das relações humanas, agora caminha para uma vivência complexa, com oportunidades nebulosas.

Não quero dar o alarme do fatalismo, muito menos levantar a bandeira do saudosismo não-tecnológico. Seria até estranho vindo da pessoa que vos fala, uma viciada em internet. No entanto, é necessário refletir como a tecnologia afeta nosso comportamento para que possamos extrair o melhor dela.

Afinal de contas, a idéia inicial era essa, não era?

E vejam bem, como eu mesma  me defini, sou aficcionada em internet, anseio por novas funcionalidades tecnológicas, sou assumidamente fascinada pelo turbilhão, sempre enlouquecedor, de informações que aparecem em milésimos de segundos nesse espaço infindável em sua capacidade de criar e armazenar conteúdos. Observo, gradativamente, mais pessoas entrando nessa mesma vibe, conectadas full time, sedentas por novidades, curiosas por um mundo que conhecemos tão pouco e que nos encanta tanto.

Mas  até quando vamos aguentar tanta pressão? Será que não estamos indo com muita sede ao pote?
Como toda vida dupla, estar se doando em duas esferas cansa. Fatiga e sufoca a mente.
A avalanche de notícias e novidades está ajudando a criar indivíduos ansiosos e compulsivos.
Não nos permitimos sentir tédio. A necessidade de absorver informações, produzir conteúdos, faz com que nos sintamos culpados e ansiosos quando não estamos fazendo nada.

Já vemos uma resposta à esse lifestyle cibernético. Um exemplo disso é o suicídio nas redes sociais. Algumas pessoas, cansadas da compulsão de estarem conectadas o tempo todo, acabam se matando virtualmente. Quem nunca conheceu alguém que deletou suas contas do orkut, twitter e facebook?

Ganhamos em conteúdo e informação generalizada, mas perdemos em foco e concentração em um assunto específico. Segundo Esteban Clua, professor do Instituto de Computação da UFF e gerente do Media Lab, laboratório da universidade para desenvolvimento de mídias digitais, a Geração Y, conectada full time, tem grande dificuldade em ler um texto longo porque estão acostumadas com os 140 caracteres do Twitter.

É claro que não há necessidade para extremismos. O caminho do meio pode ser uma boa maneira de equilibrar mundo real e virtual. Aliás, essa dica funciona para todos os aspectos de nossas vidas.

Portanto, desligar a televisão, o celular, ficar offline, ter um tempo para fazer nada, além de ajudar  a nossa saúde mental, nos auxilia  a olhar para nós também. O momento do ócio é uma boa ferramenta de auto-conhecimento.


O vídeo Disconnect to connect ( Desconectar para conectar), de uma operadora de celular tailandesa é um interessante exemplo de reflexão. Precisamos desconectar para interargimos com quem está do nosso lado, parar criarmos laços com quem está presente.

Cabe a nós sabermos administrar tais ferramentas. Ansiedade e compulsão sempre estiveram aí, são parte do nosso sistema emocional quando algo está  em desequilíbrio. A questão não são os sintomas, eles apenas nos avisam de que algo está fora do lugar.

Desligar é bom e eu sempre me lembro disso quando estou em ambientes em que a tecnologia não chega.

Vamos sim, ser conectados. Mas que busquemos saber o momento de desconectar. Sem culpas ou angústias. Equilibrar as realidades pode ser uma boa maneira de lidar com o paradigma dos tempos modernos.

Ficar offline (também) é preciso.